Oficina do Diabo

Minha opinião sobre o primeiro e esperado filme da Brasil Paralelo

Contém alto nível de spoiler

Inicialmente, devo dizer que é muito bom ter algo que não seja pornochanchada, debates sobre a miséria da sociedade humana com fundo de teologia da libertação e aquela atmosfera poeirenta e pesada dos anos 80 no Brasil terceiro-mundista. Ah, muito bom não ter nada a ver com regime militar, ditadura, tortura ou coisa que o valha.

Feita esta ponderação, devo dizer o quanto é bem-vinda – e quase tardia – uma produção cinematográfica livre das amarras conhecidas.

Dito isto, existe uma forma de narrativa mais livre, natural, sem querer conduzir sempre a consciência do telespectador pela doutrina olavista  (sim, até um “Olavo” apareceu no filme). Esse tipo de abordagem costuma funcionar melhor, pois o telespectador não é burro. Pode soltar o filme sem medo! Infelizmente, não é o que acontece aqui.

A produtora, famosa por seus excelentes documentários, parece ter muita dificuldade em transpor o ritmo documental para a ficção. O narrador está sempre presente, ainda que disfarçado em um personagem ou outro, substituindo o tradicional narrador explicativo. O resultado? Um ritmo de “documentário fictício”.

Faltam cenas bem construídas, sem saltos bruscos de um quadro para outro, sem serem obrigatoriamente acompanhados de diálogos didáticos. Faltam cenários mais vivos e diálogos naturais (não instrutivos), como na vida real. Há personagens excessivamente caricatos – os intelectuais, por exemplo, pareciam os amigos de Jó na Bíblia, mas ainda mais forçados. Será tão difícil fazer um diálogo de pessoas céticas bem feito? Ou um diálogo esnobe realista sem soar como uma versão de Mean Girls?

Outro ponto curioso: o que acontece com as mulheres jovens nesta produção? Assim como na maioria das produções da Brasil Paralelo, todas parecem versões da Lara Brenner!(?) Estamos diante de um padrão?

A narrativa em capítulos, com títulos como no livro, soa forçada – nem isso deixam para o espectador! É uma experiência cativa, mas com sinal trocado. Se em Ainda Estou Aqui o espectador é lindamente engambelado e nem percebe aonde perdeu o juízo, em Oficina do Diabo ele se mantém consciente o tempo todo de que está assistindo a um filme “gospel católico” bonito, com o Olavo no meio.

Pontos altos: a cidade de Paulínia – um lindo cenário; Elizangela (sempre ótima, deixou muitas saudades); a qualidade da imagem (muito boa); as cenas da Igreja e de música; e os figurinos.

No entanto, a experiência geral acaba sendo mais depressiva do que esperançosa. A mensagem é bonita, mas há sofrimento demais para que seja plenamente apreciada.

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